terça-feira, 27 de maio de 2008

Guia LARANJAS de Picaretagem Cultural - Cinema

O LARANJAS inaugura sua nova seção de auto-ajuda, que fará com que você se saia melhor em debates culturais, através da mais popular das formas de arte: os filmes. A sétima-arte é importante na busca de afinidade com outros seres humanos e também uma válida aliada na arte de se mostrar superior culturalmente. Há pessoas que consideram isso uma forma de sedução. Assim, você também pode se interessar por nosso guia no campo dos relacionamentos, já que as películas fazer parte da vida de qualquer casal, desde aquele cineminha empolgante do começo até as pilhas de DVD dos insuportáveis fins-de-semana quando tudo já caiu na rotina. Talvez, ao demonstrar ser um entendido, você quebre paradigmas e consiga convencer a sua gatinha a assistir com você a um filme pornô que tenha boa fotografia e direção de arte.

O ponto aqui não é de fato entender, mas se fazer passar por um expert. Antes de mais nada, portanto, é importante lembrar que você deve limitar suas opiniões cinematográficas a pessoas mais ignorantes que você. Evite pessoas que verdadeiramente entendam do assunto ou que se demonstrem viciadas, perguntando ao interlocutor a sua lista de cinco filmes preferidos; se o sujeito se recusar a responder, temendo cometer injustiças ou ativar o seu desprezo, é porque tem uma relação doentia com o cinema e entende muito mais que você. Por outro lado, pessoas que indicarem animações, filmes de ação e comédias pastelão são um excelente alvo.

A primeira dica que o LARANJAS dá é a seguinte: em geral, ninguém sabe bem qual é o papel de um diretor na realização de um filme. Roteirista, ok. Ator, óbvio. Diretor, porém, é um ente misterioso. Portanto, se você demonstrar que conhece diretores, impressiona os incautos. Tenha um diretor favorito, não importa qual seja. Seria interessante que você soubesse um ou dois filmes feitos pelo cara, mas não é essencial: quando perguntado sobre qual filme você indicaria, responda "todos, acho impossível avaliar a obra dele sem contemplá-la por inteiro". Muitos diretores têm caixinhas de DVD que geralmente estão em promoção nas lojas do ramo; vale a pena comprar e deixar na estante, pois lhe dará credibilidade e causará uma boa impressão em potenciais conquistas, além de servirem como bons apoios para os livros que você também não leu. Por fim, sempre trate seu diretor preferido apenas pelo sobrenome: Scorsese, Coppola, Tarantino, Spielberg, Kubrick, etc. A única exceção é Woody Allen, a quem você pode se referir carinhosamente como "aquele pederastinha", a fim de denotar intimidade e impressionar ainda mais.

Fellini, Bertolucci e Antonioni. Godard, Truffaut e Vadim. Herzog e Wenders. Almodóvar. Itália. França. Alemanha. Espanha. Cinema europeu é um terreno espinhoso, mas não para quem pretende falar apenas com pessoas comuns. E pessoas comuns não vêem filmes europeus. Nós simplesmente não entendemos os diálogos filosóficos, os pêlos pubianos e o uso pouco ortodoxo de tabletes de manteiga como elementos relevantes no roteiro. Assim, é um terreno válido pra você falar rigorosamente qualquer coisa, pois há uma probabilidade de 96% de seu interlocutor nunca ter visto um filme feito fora dos Estados Unidos. Talvez tenha visto, no máximo, um filme do Almodóvar, mas ou ele dormiu no meio ou achou coisa de viado. Aliás, definir cinema europeu como um todo como "coisa de viado" também é interessante, até porque é verdade. No mais, decore alguns dos nomes que abrem esse parágrafo. São diretores. Cite-os e ponto final. Se quiser, diga que são "profundamente chatos e entendiantes, mas muito interessantes". Sua vítima não vai entender nada e concluirá que você é um sujeito com uma densidade de pensamento invejável.

Por fim, tenha opiniões preconceituosas e contundentes. Ser polêmico, para pessoas mais rasas, é sinônimo de ser inteligente. O ideal é que seus comentários beirem o cult, como "não vejo filme nacional porque se eu quisesse ver pobre sofrendo ficava em casa vendo a empregada lavar a minha privada". Ou "não vejo filme indiano por questões higiênicas". Um "ultimamente larguei o cinema convencional e tenho visto apenas pornografia lésbica, porque gosto dos enquadramentos mas não curto ver rolas no meu telão de plasma", dito de forma séria e num ambiente receptivo, pode ser surpreendentemente positivo. Talvez até convença a sua gatinha a uma sessãozinha a dois.

6 comentários:

Anônimo disse...

Hahaha Esse eu já conhecia, mas é dos melhores da carreira do colega Volpeto.

Anônimo disse...

Oooorra confundi, não conhecia esse texto, mas conheço a origem dele!

Fernando Silva disse...

Fazer uma lista de 5 filmes não é tão complicado:
1 - Coloque "Cidadão Kane" em primeiro lugar. É vaca sagrada.
2 - Cite qualquer filme do Goddard ou do Fellini. Afinal, os europeus são muito melhores que os malditos ianques.
3 - Se for citar um maldito ianque, que seja um que subverta as ordens da Academia. Woody Allen costuma ser uma boa pedida.
4 - Apenas para dizer que você jamais se importou com esse negócio de Guerra Fria, faça uma menção ao cinema (??) soviético. O Encouraçado Potenkin, de Sergei Eisenstein, é o preferido das enciclopédias.
5 - Inclua um filme iraniano, para demonstrar que você se importa com a cultura de países periféricos.

Lilás, disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lilás, disse...

Ué!
Cadê o Chaplin nessa história toda?

:)

Fernando Silva disse...

Quanto ao parágrafo sobre o diretor de cinema, lembrei dele ao ver essa tirinha: http://g1.globo.com/Noticias/Quadrinhos/0,,MUL586236-9662,00-MUNDINHO+ANIMAL.html